1.  Visualização 3D – 2D

A representação gráfica é o mais importante modo de registo e comunicação da informação desde os primórdios da civilização humana, sem que até aos nossos dias tenha sido substituído por nenhum outro, não obstante as sucessivas alterações e evolução que se têm verificado.
O domínio da Geometria como componente fundamental do âmbito da Representação Gráfica consiste na descrição e representação de elementos de ordem conceptual inerentes à identificação das formas. As formas que delimitam e por conseguinte definem, do ponto de vista de configuração, os espaços e os meios em que vivemos. A descrição e representação desses elementos tem como objectivo não apenas o seu registo e a possibilidade de comunicação, mas sobretudo de análise e interpretação das relações que esses elementos estabelecem.
O carácter material e por conseguinte não ilimitado das formas de quaisquer objectos presentes nos diversos domínios da actividade humana induziu a necessidade de uma maior conotação e identificação com a realidade, através da representação gráfica dos elementos que a constituem. Esta situação que se traduz numa mais eficaz percepção da forma aquando da leitura da sua representação, passa a exprimir a sua configuração não apenas pela relação qualitativa entre os elementos geométricos que a constituem mas também pelas relações quantitativas fisicamente inevitáveis de se estabelecer.
Este modo de representação que conjuga aspectos de ordem conceptual que a Geometria analisa e discute com o rigor científico que a caracteriza, a partir do conceito elementar de Projecção Ortogonal, com aspectos formais necessários a uma apresentação convencional e por conseguinte com um carácter de linguagem o mais uniforme possível no sentido representação em 2D da forma existente em 3D e da visualização em 3D de uma representação em 2D, constitui o objecto do Desenho Técnico a partir de cuja leitura se induz o processo de visualização 3D – 2D.

 

 

 


 

1.1. Conceito de Projecção Ortogonal

 

A identificação de uma entidade elementar (ponto) do espaço, no plano, constitui uma representação plana e resulta de uma projecção desse ponto, no plano (Fig. 1.1). A direcção definida pelo ponto, pela sua projecção plana (e pelo observador) é designada projectante.

 

  

Fig. 1.1 - Elementos da Projecção Plana

 

O conceito de projecção é, como já se referiu, um conceito fundamental no domínio da Geometria.

De acordo com esta definição surge no entanto uma outra questão. Relativamente a um ponto e um plano, quantas projecções do ponto sobre o plano são possíveis obter?

De facto, para cada ponto é possível estabelecer infinitas representações a partir de outras tantas projecções, no plano. (Fig. 1.2)

 

Fig. 1.2 - A cada ponto correspondem infinitas projecções num plano

 

O problema afigura-se indeterminado a menos que a introdução de alguma característica adicional ao conceito de projecção permita restringir a solução do problema a uma só.

O conceito de ortogonalidade associado ao conceito de projecção esta­belece uma possibilidade única: A cada ponto corresponde uma só projecção ortogonal num dado plana (Fig. 1.3).

 

Fig. 1.3 - Uma e uma só Projecção Ortogonal de um ponto no plano

 

seta Um Referencial

Se a projecção ortogonal num dado plano como identificação de um ponto (continuar-se-á a limitar o objecto de representação a um ponto) é inequívoca porque atada ponto corresponde uma e uma só projecção ortogonal num dado plano tomado como referência, a inversa no entanto não é verdadeira:

Para uma dada projecção podem existir infinitos pontos.

Trata-se com efeito do lugar geométrico dos pontos do espaço que em relação a um plano se projectam ortogonalmente num único ponto (Fig. 1.4) e que se constitui como uma direcção: A direcção perpendicular ao plano passando pela sua projecção ortogonal nesse plano.

 

 Fig. 1.4 - A uma projecção ortogonal Q podem corresponder infinitos pontos

 

Um modo de resolver a indeterminação do problema de identificar o ponto para o qual se conhece uma projecção ortogonal num dado plano, é a par­tir da consideração de um segundo plano, perpendicular ao primeiro.

O sistema assim constituído consiste em dois planos ortogonais entre si. A cada ponto do espaço correspondem não uma, mas duas projecções ortogonais desse ponta A projecção do ponto Q no plano vertical é um outro ponto convencionalmente designado por Q´´, e de modo semelhante a projecção no plano horizontal é designada Q'.

E aqui já a inversa é verdadeira, isto é, a duas projecções ortogonais, cada uma em um de dois planos ortogonais, corresponde um e um só ponto. (Fig. 1.5).

 

Fig. 1.5  - Duas projecções ortogonais de Q em dois planos ortogonais entre si.

 

Entretanto ficarão também estabelecidos em relação aos planos, dois valores de coordenadas: distâncias do ponto a cada um dos planos de projecção.

Assim, a distância do ponto Q ao plano horizontal:

QQ´, é a cota; e a distância do ponto Q ao plano vertical: QQ´´, o afastamento.

Este par de valores é em geral escrito na forma:

Q(valor do afastamento, valor da cota):

Assim por exemplo, ter-se-ia Q (2, 3.5)

para um caso de QQ´´ = 2 e QQ´ = 3.5

Como é do conhecimento geral, um plano é no entanto uma entidade geométrica de dimensão limitada, os dois rectângulos ou quadrados com que habitualmente se pretende representar ou visualizar um plano são apenas e quando muito, uma porção de plano.

Assim, o sistema de planos ortogonais entre si não pode definir apenas uma justaposição de dois planos, mas antes uma intersecção, isto é um conjunto de pontos definindo uma dada direcção consoante a orientação dos planos, e comum a ambos, designada Linha de Terra (Fig. 1.6) e vulgarmente representada por LT.

 

Fig. 1.6 - Um referencial ortogonal

 

Tal sistema por constituir a referência relativamente à qual é possível representar as projecções e também as coordenadas de um ponto, capazes de o identificar inequivocamente é designado um referencial ortogo­nal. Divide o espaço em quatro quadrantes (Fig. 1.7) e o plano vertical designa-se plano vertical de projecção-∞0, o plano horizontal designa-se plano horizontal de projecção-v0.

 

Fig. 1.7 - Quatro Quadrantes       

      

Com efeito a qualquer ponto do espaço (Fig. 1.8-a) e por conseguinte situado em qualquer quadrante correspondem duas projecções (Fig. 1.8-b). São dois outros pontos mas nenhum é o ponto-objecto.

É obvio, dado que o objecto é um ponto do espaço e a representação que se obtém é no plano.

As duas projecções identificam o ponto, mas não o são.

 

Fig. 1.8 - A´´ e A´ são projecções do ponto A, identificam inequivocamente o ponto A, mas não são o ponto A

 

Por momentos parece contudo que o problema da representação de 3D em 2D não está resolvido:

A consideração de um Plano de referência conduziu à definição de um espaço tridimensional.

No entanto, o problema a partir daqui é simples:

Suponha-se uma rotação do Plano vertical de Projecção em tomo da linha de terra, até coincidir tom o Plano horizontal de Projecção (Fig. 1.9-a). A configuração que se obtém descreve-se na Fig. 1.9-b).

 

Fig. 1.9 - O plano vertical roda até coincidir com o plano horizontal

 

Tendo em conta o carácter ilimitado do Plano, a representação do referencial em 2D limita-se à configuração apresentada na (Fig. 1.10) e a representação do ponto A´ limita-se à representação das suas projecções A´ e A´´ (Fig. 1.11)

 

Fig. 1.10- Referencial em 2D

 

Fig. 1.11 - Representação de um ponto A: Não se  representa o ponto A, mas sim as suas projecções

 

Este método de representação de 3D em 2D, devido a Gaspard Monge (1745/1818) constitui um dos conceitos fundamentais em Geometria Descritiva também  conhecido como Método de Monge ou ainda (quanto a nós, menos correctamente), Geometria de Monge, está subjacente a todas as aplicações da representação gráfica no âmbito aqui considerado, indepen­dentemente dos meios ou técnicas utilizados, e não obstante as tendências que a evolução tecnológica vem proporcionando também no domínio da geometria e de que já se deu uma panorâmica.

Um dos aspectos mais interessantes da consideração de um referencial na identificação de elementos geométricos é a sua independência: O  referencial a considerar é qualquer.

Apenas tem que ser assumido do princípio ao fim da análise em ques­tão, a menos que se pretenda fazer mudanças de referencial e considerar a identificação em relação a um ou outro ou ainda em relação a um e por sua vez, deste em relação ao outro.

De facto o ponto K (Fig. 1.12) tem as projecções K´1 e K´´2 no referencial 1 e K´1 e K´´2 no referencial 2. As projecções que identificam o ponto K e as suas coordenadas: afastamento e cota, no referencial 1, não são as mesmas que o identificam no referencial 2, mas nem por isso o ponto K deixa de ser o mesmo.

 

Fig. 1.12 - Para cada referencial, as projecções de K são diferentes, mas o ponto K é sempre o mesmo

 

 


 

seta1.2. Representação plana da Forma

A representação plana de objectos não é mais que a representação de um conjunto finito de pontos capaz de identificar inequivocamente a configuração do objecto - em geral os seus vértices.
No caso de um sólido redondo (não poliedro, por ex: cone, cilindro, esfera) esse conjunto de pontos reportar-se-á aos pontos que permitem (eventualmente algum(s) pode (m) constituir um vértice) visualizar e por conseguinte definir um contorno (ainda que aparente) que em termos de projecção plana constitui como que uma aresta. Em geral, trata-se com efeito da última geratriz visível para uma dada relação observador, objecto e plano de projecção, e variável com esta relação.

No caso de um poliedro este conjunto de pontos deve corresponderem primeira análise aos vértices do poliedro. Por cada dois vértices consecutivos e portanto dois pontos é possível identificar e representar um segmento de recta que se assume como uma aresta. As faces do poliedro são superfícies planas de cuja intersecção resultam as arestas, por sua vez já representadas. As arestas enquanto segmentos de recta pertencentes aos planos que definem as faces são elementos geométricos que as identificam.

Assim, para o objecto da Fig. 1.13 é possível identificar 10 vértices, isto é 10 pontos de A a J aos quais se pode por generalização aplicar o conceito de projecção ortogonal  para qualquer ponto Q.

 

Fig. 1.13 - Identificação dos vértices de um objecto

 

Assim, para cada um dos pontos estabelecem-se dois novos pontos: uma projecção vertical (sobre o plano vertical de projecção) e designado por ´´ e uma projecção horizontal (sobre um plano horizontal de projecção) e designado por ´ associados à designação do ponto. O resultado é o que se apresenta na Fig. 1.14.

 

 

Fig. 1.14 - Projecções Ortogonais sobre os planos de projecção que constituem o referencial

 

Procedendo à planificação nos termos descritos, obtém-se a representação da Fig. 1.15-a) ou considerando o carácter de independência da do referencial mais simplesmente como na Fig. 1.15-b).

 

Fig. 1.15 - Planificação dos planos de projecção e representação do objecto da Fig. 1.14

 

 


 

1.3. Identificação e representação da Forma

O processo descrito e que resulta por generalização, na aplicação do conceito de projecção ortogonal apresentado constitui a metodologia utilizada na representação gráfica a duas dimensões dos elementos geométricos que definem qualquer forma ou objecto espacial.

Importa no entanto e desde já notar o carácter não inequívoco quanto à representação da peça apresentada na Fig. 1.16-b e da qual se pretende fazer a leitura. Com efeito, ao conjunto das duas projecções ortogonais apresentadas, é possível fazer corresponder e por conseguinte identificar mais que um objecto como por exemplo os da Fig. 1.16.

 

Fig. 1.16 - Ambiguidade na representação de projecções ortogonais (insuficientes) de um objecto.

 

Embora sendo possível a representação, em números casos, de peças para as quais um sistema de duas projecções as representa inequivocamente e por isso essas projecções apresentam-se como suficientes, importa desde já chamar a atenção para este problema a ter sempre em conta na representação de uma peça por projecções ortogonais.

Este problema exemplificado na Fig. 1.16 deve-se fundamentalmente à existência de algumas arestas cuja direcção se identifica como sendo de perfil. A este assunto voltar-se-à com detalhe em 1. Desenho Técnico.

Para já o problema reporta-se a uma indeterminação que interessa ultrapassar.

De facto à semelhança do que acontece em qualquer domínio do conhecimento e até mesmo no dia-a-dia a nível das mais diversas. comuns situações, quer excesso de soluções - indeterminação, é superado com informação adicional, que restrinja o conjunto de soluções possíveis.

Neste caso, informação adicional pode ser obtida a partir da consideração de um terceiro plano de projecção ortogonal aos dois planos considerados. As projecções ortogonais dos dez pontos A a J, retomando o exemplo da Fig. 1.14, neste terceiro plano constituem a terceira projecção (Fig. 1.17).

 

Fig. 1.17 - Projecção ortogonal adicional: Plano de projecção adicional

 

 

A planificação, de tipo já indicado e que na hipótese de consideração de três planos, corresponde ao processo indicado na Fig. 1.18 conduz ao conjunto de projecções ortogonais apresentado na Fig. 1.19 e que deste modo identifica sem qualquer margem de ambiguidade a peça da Fig. 1.19.

 

 

Fig. 1.18 - Planificação dos planos de projecção considerados na Fig. 1.17.

 

 

Fig. 1.19 - Representação inequívoca por projecção ortogonais do objecto da Fig. 1.17.

 

 

 


 

1.4. Apresentação em 2D de formas existentes em 3D. Normalização.

A normalização é a procura de procedimentos e soluções-tipo na apresentação e exposição de problemas e situações do âmbito da tecnologia em geral e em particular no âmbito da Engenharia.
Ao nível do Desenho Técnico pretendem-se criar regras de representação comum que tornem a interpretação dos desenhos numa atitude objectiva e por conseguinte, numa linguagem.

No sentido de conferir ao Desenho Técnico o carácter de linguagem que o torna instrumento de comunicação é fundamental racionalizar os modos de representação, isto é, normalizar. Ë pois necessário o estabelecimento de regras de representação Universalmente aceites. No Desenho Técnico, bem como em qualquer ramo da Tecnologia, cem especial na Engenharia, a Normalização tornou-se um instrumento de grande importância.

Normalizar integra pois uma atitude de definir, unificar e simplificar os produtos acabados, bem corno os meios utilizados para os produzir, através do estabelecimento de documentos designados por normas. Para além da normalização ao nível nacional, encara-se actualmente e com grande veemência uma normalização internacional. A título de exemplo cite-se o caso das películas fotográficas, das quais é necessário conhecer a sensibilidade que na embalagem aparece inscrita sob a forma x º DIN ou y º ASA: Isto significa que a sensibilidade é de x graus de acordo com a escala de sensibilidade definida pelas normas alemãs DIN (Deutsche Industrie Normen), ou de y graus de acordo com as normas americanas ASA (American Standard Association).

Nos mais diversos domínios de actividade existem normas em vários países como são: as BS (British Standards), as NF (Normes Française), as UNE (Una Norma Espanhola), as NB (Normas Brasileiras) e as NF (Normas Portuguesas).

As normas nacionais de cada país são elaboradas por iniciativa de um organismo oficial de normalização. Em Portugal o organismo responsável é o Instituto Português da Qualidade (DGO) dependente do Ministério da Indústria.

A nível internacional existe um organismo, a ISO (Internacional Standards Organization que associa 62 países e o CEN (Comité Europeu do Coordenação de Normas) que agrupa países pertencentes ao mercado Comum, no intuito de concretização da ideia do estabelecimento de normas como se um só pais as emitisse.

A nível do Desenho Técnico, existe também uma normalização com o de estabelecer as necessárias regras de representação, consignadas seguintes documentos NP (Norma Portuguesa), em geral elaboradas por acordo com recomendações de organismos internacionais:

 

NP 48 (1968) - Formatos 

NP 49 (1968) - Modo de dobrar folhas de desenho 

NP 62 (1961) - Linhas e sua utilização 

NP 89 (1963) - Letras e algarismos 

NP 167 (1966) - Figuração de materiais em corte 

NP 204 (1968) - Legendas 

NP 205 (1961) - Latas de peças 

NP 297 (1963) - Cotagem 

NP 327 (1967) - Representação de vistas 

NP 328 (1964) - Cortes e secções 

NP 406 (1968) - Inscrição de Tolerância 

NP 671 (1968) - Representação convencional. Convenções de utilização geral 

NP 716 (1968) - Cotagem e especificação de tolerâncias de elementos cónicos 

NP 717 (1968) - Escalas 

NP 718 (1968) - Esquadrias

 

São de considerar ainda outros elementos, ainda que não tenham dado origem a Normas, e que se apresentam sob a forma de recomendação, relativas a Desenho Técnico: R 129 (1959) - Princípios de representação R 129 (1959) - Cotagem R 406 (1964) - Inscrição de tolerâncias lineares e angulares

Em termos práticos, na escolha de normas deve procurar-se em primeiro lugar seguir as Normas Portuguesas. Se sobre o assunto desejado não houver Normas Nacionais, seguir-se-ão as recomendações ISO ou na falta destas as Normas DIN.

 

Fig. 1.20 - Norma Portuguesa, NP (Reprod. autorizada pelo IPQ).

 

 


 

1.4.1. Títulos e legendas

Embora os processos gráficos de representação utilizados no Desenho Técnico e que serão desenvolvidos nos próximos parágrafos, constituam uma poderosa forma de expressão, não são em geral suficientes para a definição completa do desenho. De facto é quase sempre necessário incluir indicações escritas.

Estas inscrições podem considerar-se de dois tipos distintos: anotações ao longo do desenho, como cotas (dimensões de elementos do desenho), acabamentos dos objectos, etc., e um conjunto de informações agrupadas na legenda.

De modo a evitar inscrições nos desenhos que comprometam o seu aspecto o clareza, existe uma escrita normalizada, que, quer seja executada à mão, por escantilhão ou por decalque, obedece a regras internacionalmente aceites. Ao nível dos Títulos e Legendas, a Normalização fixa, as dimensões, proporções, inclinação e disposição das letras e algarismos, de modo a melhorar o aspecto do desenho e simplificar a sua execução. A Norma Portuguesa - NP - 89 (1963) - refere todos os pormenores relacionados com a escrita normalizada. Na Fig. 1.21, apresenta-se um extracto da NP-89, contemplando os dois tipos de escrita definidos naquela forma: escrita cursiva e estrita redonda. Esta última é normalmente seguida por quem escreve e desenha com a mão esquerda.

Saliente-se que só um treino intensivo e metódico, começando pelos caracteres isolados o passando posteriormente para as palavras e as frases, permite adquirir a prática necessária à boa execução manual de escrita normalizada. Em geral para efeitos de apresentação final, recorre-se à escrita por escantilhão ou letra decalcável.

 

Fig. 1.21 - Escrita normalizada cursiva e redonda. (Reprod. autorizada pelo IPQ)

 

A legenda é encostada à margem no canto inferior direito do desenho e deve ter uma largura não superior a 18 cm, por forma a que depois do desenho dobrado a agenda fique totalmente visível, facilitando a rápida identificação do desenho. Os elementos que normalmente constituem a legenda são:

 

  • Identificação do objecto ou objectos representados no desenho;

  • Identificação dos autores e responsáveis pela execução do desenho (normalmente o técnico responsável pelo projecto e o desenhador);

  • Identificação do cliente (entidade que encomendou o desenho);

  • Informações gerais sobre o desenho, como escalas, datas, etc.;

Referenciação de alterações que venham a ser ou tenham sido Introduzidas no desenho. Os tipos de legenda estão normalizados na norma NF - 204 (1968). Existem vários tipos de legendas, uns mais complexos outros mais simples. Na Fig. 1.22 apresenta-se um exemplo elucidativo de uma legenda com a indicação dos elementos principais. Para mais pormenores à consultar a norma já referida;

Fig. 1.22 - Exemplo da legenda de um desenho (a) e sua inserção (b)

 

 


 

1.4.2 Tipos de traços e sua utilização 

Consideram-se em desenho técnico diferentes tipos de traços no que respeita à sua configuração, seu tipo e espessura. A Norma Portuguesa NP - 62 (1961) define os traços que deverão ser utilizados, suas espessuras e condições de utilização.

Relativamente aos tipos de linhas são definidos os tipos de traço seguintes:

 

a) traço continuo grosso 

b) traço interrompido (sendo o espaço aproximadamente 1/4 a 1/2 do comprimento    do traço) 

c) traço-ponto grosso 

d) traço-ponto fino 

e) traço continuo fino

 

De notar que o traço-ponto é na realidade representado por um traço grande seguido de um traço pequeno e não de um ponto, como a designação sugere. De referir ainda a designação traço interrompido que não deve confundir-se com tracejado, cujo significado é totalmente distinto, como se verá em 4.Cortes e Secções. A utilização de cada tipo de traço obedece a critérios bem definidos e está naturalmente relacionada com as respectivas utilizações. Por exemplo, e como certamente o leitor saberá, ou pelo menos achará lógico, as arestas e os contornos visíveis dos objectos são representados com o traço mais importante: o traço contínuo grosso.

Na Fig. 1.23 apresenta-se um resumo da utilização dos diversos traços em desenho técnico, bem como uma aplicação elucidativa, de acordo com a respectiva norma à referida. Finalmente refira-se ainda que as diversas espessuras num determinado tipo de linha a utilizar dependem das escalas de representação e do assunto Urbanização. Arquitectura, Construção Mecânica, etc.) a que se refere o desenho, são definidas pormenorizadamente na Norma NP - 62 (1961) e designam-se em décimos de milímetro.

 

Fig. 1.23 - Utilização dos diferentes tipos de traços em Desenho Técnico (Reprodução autorizada pelo IPQ).

 

 


 

1.4.3 Formatos, dobragens e arquivo de desenhos 

Formatos dos desenhos

A norma NP - 48 (1968) define os formatos das folhas suportes físicos de representação) que devem ser utilizados em Desenho Técnico. Integram a designada série A, que tem como base o formato A0 cuja área é de 1 m2.

Conforme se apresenta na Fig. 1.24, ao rectângulo maior e exterior corresponde o formato A0 (ver dimensões no Quadro abaixo), O lado maior de qualquer formato é igual à diagonal do quadrado cujo lado é a sua menor dimensão, permitindo-lhe assim, ao dividir-se a folha ao meio, obter-se um novo formato de área igual a metade do anterior e com igual razão entre os lados. No Quadro abaixo que apresenta as dimensões dos vários formatos normalizados pode verificar-se que, por exemplo, o formato imediatamente superior ao formato A0, que é o formato 2 A0, tem uma área de 2 m2 e o formato imediatamente inferior ao formato A0. que é o formato A1, tem uma área de 0,5 m2. As regras para execução das esquadrias e das correspondentes margens entre estas e os bordos das folhas estão normalizadas pela NP - 718 (1968).

Quando se torna necessário prever uma margem suplementar exterior ao contorno do formato, destinada à fixação da tolha ao estirador e que se deve cortar depois do desenho concluído, tem-se uma área correspondente ao formato bruto. O formato final obtem-se por corte da referida margem suplementar ou quando à partida se prescinde da mesma. O quadro apresenta além das dimensões dos diversos formatos da série A, a margem e a área do formato final de cada um deles, tendo em consideração as normas NP - 48 (1968) e NP - 718 (1969). Embora não se utilizem directamente em desenho técnico, existem ainda duas séries distintas B e C maiores que a série A. Estas séries são utilizadas, por exemplo, para envelopes que conterão os formatos A já descritos.

 

Designação

Dimensões do Formato Bruto 

[mm]

Dimensões do Formato Final 

[mm]

Área 

[m2]

2A0

1230  x  1720

1189  x  1682

2,0000

A0 

 880  x  1230

841  x  1189

1,0000

A1

625  x   880

594  x  841

0,5000

A2

450  x  625

420  x  594

0,2500

A3

330  x  450

297  x  420

0,1250

A4

240  x  330 

210  x  297

0,0625

A5

-

148  x  210

0,0312

A6

-

105  x  148

0,0156

 Fig. 1.24 - Formatos e dimensões da série A por subdivisão do formato A0.

 

Além dos formatos da série A, a NP - 48 (1968) prevê ainda a possibilidade de se considerarem para folhas de desenho formatos alongados que se obtém dos da série A alongando o seu lado menor. Este alongamento deve corresponder a um múltiplo inteiro de 1/4 do lado menor no formato A0. A Fig. 1.25 mostra dois exemplos de formatos a) alongados, cujas designações são respectivamente formato 21/2 A4 e 11/4 A0.

 

Fig. 1.25 - Exemplos de formatos alongados. (Reprodução autorizada pelo IPQ).

 

 

 

setaDobragem de desenhos

De acordo com a norma NP - 49 (1968) deverá procurar-se que o desenho dobrado (entenda-se que se tratará de uma cópia do original tenha as dimensões do formato A4. A respectiva legenda deverá como se referiu ficar no canto interior direito do desenho, de forma a ficar perfeitamente visível.

O método de dobragem dos diversos formatos é o representado nas Figs. 1.26 e 1.27, respectivamente para desenhos executados ao baixo e ao alto. A dobragem dos formatos alongados faz-se de forma análoga à dos formatos normais.

Nos casos em que se pretenda dobrar os desenhos para colocarem bolsas de formato A4, É usual manter a dobra inicial de 185 mm até ao fim, repartindo de uma forma equilibrada o eventual excedente da última dobra.

Quando os desenhos dobrados são para colocar dentro de bolsas ou caixas com formato ligeiramente superior ao A4, dobram-se simplesmente em harmónio, fazendo primeiro uma série de dobras verticais afastadas de 210 mm e depois uma série de dobras horizontais afastadas de 297 mm isto e, respeitando as medidas do formato A4. Normalmente é costume acrescentar uma margem de fixação ou pestana nos desenhos destinados a guardar em dossier, a qual deverá ser reforçada quando se preveja um uso intenso. Em muitos casos, também é adoptada uma pestana para facilitar a abertura de desenhos guardados em caixas.

 

 

Fig. 1.26 - Dobragem de desenhos executados ao baixo. (Reprodução autorizada pelo IPQ) 

 

 

Fig. 1.27 - Dobragem de desenhos executados ao alto. (Reprodução autorizada pelo IPQ)

 

 

 

setaArquivo de originais

Como facilmente se compreende, os originais dos desenhos não devem ser dobrados, no sentido de permitir sempre a obtenção de cópias sem vincos marcados, em situações posteriores. Devem guardar-se em rolos, ou de preferência. estendidos dentro de armários de arquivo, em geral constituidos por gavetas largas e baixas.

No âmbito da utilização da informática na representação gráfica e em especial no desenho técnico por recurso aos sistemas CAD, tal como nos Sistemas de Informação de âmbito global, o processo de arquivo passou a ser irreversivelmente em formato digital, suportado fisicamente por unidades do tipo discos rígidos, e CD-Rom ou DVD-Rom.